Guri

by Daniel Torres 0 Comments

7 de agosto de 2010 | Coluna de Paulo SantAna na Zero Hora

Ah que saudade, César Passarinho, da tua voz ecoando pelo auditório, os gaúchos e as prendas te ouvindo reverencialmente, o tom másculo e delicado das tuas estrofes encantando as pessoas:

Das roupas velhas do pai

Queria que a mãe fizesse

Uma mala de garupa

Uma bombacha e me desse.

* * *

Enquanto cantavas, César Passarinho, espalhava-se pelo auditório uma unção gauchesca e nativista que parecia aos ouvintes que a pátria primeira era o Rio Grande, o Brasil não passava de um território depois anexado:

Queria boinas e alpargatas

E um cachorro companheiro

Pra me ajudar a botar as vacas

No meu petiço sogueiro

* * *

De onde é que o João Batista Machado e o Júlio Machado da Silva Filho foram tirar tanta inspiração para compor este Guri?

É um hino comparável ao Canto Alegretense, tem de ser cantado ajoelhado ou em posição de sentido.

Mas tu, ícone amado, César Passarinho, pássaro canoro, emprestaste a esta canção célebre um cheiro de pampa e de tapera dificilmente conseguido em outras composições célebres.

* * *

Hei de ter uma tabuada

E o meu livro “Queres ler”

Vou aprender a fazer contas

E algum bilhete escrever

Pra que a filha do seu Bento saiba

Que ela é meu bem querer

E se não for por escrito

Eu não me animo a dizer

* * *

Que saudade que dá do tempo em que eras vivo, César Passarinho, embora as gravações te tenham eternizado.

Quando eu ouvia o Leopoldo Rassier, saudoso amigo, me lembrava de ti, quando ouço o João de Almeida Neto, o José Cláudio Machado, o Élton Saldanha, o Daniel Torres, o Wilson Paim, quando ouço todos estes rouxinóis, lembro-me de ti, César Passarinho:

* * *

Quero gaita de oito baixos

Pra ver o ronco que sai

Botas feitio do Alegrete

E esporas do Iborocai

Lenço vermelho e guaiaca

Compradas lá no Uruguai

Pra que digam quando eu passe

Saiu igualzito ao pai

* * *

É muito bom, César Passarinho, que nosso maior ídolo cantante sejas tu, negro, pois a raça negra forjou também este Rio Grande das peleias, do chimarrão, do churrasco, da bombacha, do tirador, do pingo, da cana, do carreteiro e das invernadas.

Tu tinhas e tens, César Passarinho, catinga de pampa e de coxilhas.

Mas, cá para nós, entre todas as pérolas que cantaste, este Guri foi de fazer-nos enlouquecer e “ir dormir nos trilhos”.

*Texto publicado em ZH

Link: http://wp.clicrbs.com.br/paulosantana/2010/08/07/guri/?topo=13,1,1,,,2

Leave a reply

Your email address will not be published.

You may use these HTML tags and attributes:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>